Minha Mãe

Minha mãe não possuía uma planilha ou banco de dados intitulado “Dose de natureza ou atividades diárias ao ar livre para fazer de meus filhos pessoas melhores”. Em vez disso, dar atenção a natureza – e acho que ela definia a palavra “natureza” como todos os seres vivos além de nós mesmo – simplesmente fazia parte do seu jeito de viver . fosse falar do pássaro que acabara de chegar espalhando o alpiste do comedouro do quintal, ou dizer o nome dos vários tipos de pombos que patrulhavam os quintais do nosso bairro próximo ao Satélite, enchendo as calçadas de cocô que perturbava o pé dos passantes  descalços, ou apenas ao dar apoio à mania que eu tinha de fazer ser meus  animais de estimação todas as criaturas que conseguisse capturar no pântano – cobras-de-água esguias com seu fascinante brilho esmeralda; girinos, de rã-touro gigante com a cabeça bulbosa que parecia indicar uma inteligência cetácea; tartarugas-pré-históricas de casco mole, com formato de panqueca, de barriga claro e pescoço periscópico; lagostins de água doce; lagartos listrados; jabutis ; bagre; peixinhos de superfície; caracóis  ( em algum momento deve ter dado a impressão de que todas as criaturas do reino animal havia passado pelo minha casa e morado por algum tempo ) - , a minha mãe me inculcou, desde que me lembro , o habito não só de olhar além de min mesmo, como de sentir estimulado e entusiasmado  com o que o mundo tinha a oferecer.

Às vezes, pessoas como eu costumam dizer “Queria ter nascido em cem anos atrás” ou “Como queria ter visto esse pais quando ele era jovem, intrigo e forte...”, mas a verdade é que, no fundo, não posso me queixar. Tive muita sorte. Do ponto de vista naturalista, creio que vivi a ultima boa e velha infância não aterrorizada pela consciência de perda, graças á minha mãe, e por isso me considero um sortudo. Devo confessar que, hoje, nem sempre sigo o exemplo dela. Penso em algo dia quando eu tiver meus filhos, compartilhar alguma expressão da natureza, seja sublime ou sutil, muitas vezes o faço com aquela incerteza consciente que me leva a perguntar: “Isso – um passarinho, uma geleira, o som de uma narceja na primavera – é algo que eles poderão compartilhar com seus filhos?”, sabendo que a resposta seja não.

É claro que houve dias da minha infância que se passaram sem contato com a natureza, mas não foram esses dias que ficaram na memoria. O que me lembro é da empolgação de descobrir pegadas de algum bichos no quintal, e de minha mãe passar horas comigo fazendo molde de gesso e, depois, uma impressão em cera das pegadas. Décadas mais tarde, vi impressões como essa na aula  de biólogos que estudavam a vida selvagem – moldes da imensas  patas de ursos, lobos, suçuaranas – e senti um tipo imediato de afinidade, embora meus troféus da infância tenham sido de baces , gambás, guaxinins. A especificidade dos detalhes conservados naqueles moldes – a maravilha dos encaixes perfeitos – estava tão presentes nas rugas delicadas da sola do pé do guaxinim suburbano quanto nas almofadas dos dedos lince canadense.

Uma luz se acendia e aquecia meus pensamentos quando eu via e me envolvia com o mundo ao ar livre. Reluto em admitir que minha infância resume se no esforço que minha mãe de me dera para que eu pudesse aproveitar ao máximo a natureza que nos cercava.



Pois não sabemos ao certo quando devemos nos despedir... talvez nunca saberemos!


- Meu nome não é Padero;

Comentários

Postagens mais visitadas