Parar de pensar. Parar de sentir.

O aspecto lúdico da situação a faz parecer quase falsa, um extrato de poesia largado em uma realidade nada lírica.
A camisa xadrez masculina aberta, o cachecol preto no pescoço. Calça jeans grudada e botas de cano alto. Saco de dormir, mochila e bolsa largado nos pés da mesa. Ela esta sentada com um copo de starbucks quente e um pedaço de bolo. Doce de leite latte, para esquentar o frio que a congelou durante o final de semana; bolo de laranja, nozes e chocolate, para saciar a larica que vinha destroçando seu estômago de universitária, assim como para adoçar a amargura que ficou presa na língua e no sorriso.
Sentada, sozinha, em uma mesa para dois, ela divaga a respeito dos dias que se passaram, tentando reprimir a vontade de um cigarro para acompanhar a situação devido a nova lei anti-fumo. Na verdade, seria melhor dizer que ela refletia a respeito de uma pessoa (em) especial que acompanhou os dias que se passaram.
Enquanto cenas envolvendo-o, algumas recentes, outras nem tanto, desfilavam diante dos olhos emoldurados, uma variedade de expressões se apresentou no palco do rosto dela. De sorrisos calmos, alegres, proveitosos, a expressões de angústia, desespero e desilusão. Era quase como se sentisse as lágrimas secas machucando as bochechas que estavam aquecidas pelo ambiente fechado.
Foi quando o café chegou ao fim que ela resolveu observar seus machucados. Os hematomas, os cortes com sangue seco, mãos e joelhos ralados devido as quedas. Suspirou. E, sem saber exatamente como e nem todo o porque, decidiu que iria parar. Parar de pensar, até ser capaz de parar de sentir. Pois quando parasse de sentir, pararia de sofrer.
Foi na manhã do segundo dia de viagem que ela percebeu. Estava sozinha, no quarto, arrumando um pouco da bagunça quando respirou o aroma deixado no travesseiro. Cigarro misturado com o perfume bruto e adocicado da pele dele. O cheirinho da pele era um evento raro, mas o cigarro era praticamente constante. Sempre vermelho e forte, variando entre duas marcas. O mesmo que ela fuma. Forte, persistente, delicioso. Lembra ele em vários aspectos. O cigarro em si lembra ele. Mas ela quer parar de pensar, ela quer parar de sentir, ela quer ser livre uma vez mais.
“Você tem que rever seus conceitos de certo e errado”.
Ele disse isso no primeiro dia da viagem, mas não explicou. A cena ficou gravada na cabeça dela e repetiu-se algumas vezes enquanto o café quente com leite e doce de leite escorriam pela garganta irritada de tanta fumaça tragada durante os últimos três dias. Passa o replay, ou, às vezes, vem só a voz dele entoando as palavras e depois fugindo da explicação. Ela não consegue descobrir do que, exatamente, ele esta falando, e isso dá uma coceira na nuca.
Mas ela quer para de pensar, para parar de sentir.
Algumas vezes ela ficou na varanda, parada, com o cigarro aceso apenas como uma desculpa para poder ficar ali, observando-o a distância. O som das machadadas subia o terreno e chegava oco até a casa.
Cigarro sempre acaba lembrando ele.
Já café a lembra dela mesma. Ele também gosta, mas ela nunca o viu tomando tanto. Ela já tomou mais, durante o ano anterior foram litros. O cursinho era pesado.
Ele trabalha em cursinhos.
Afinal de contas, café também lembra ele.
O que realmente a lembra dela mesma é doce de leite. O doce favorito dela. Querido e que não trás nenhuma lembrança sobre ele consigo.
Quando este detalhe passar despercebido talvez ela tenha conseguido parar de pensar. Quem sabe ela já tenha conseguido parar de sentir.
No início, ela estava quase disposta a mudar seu estilo, mas desistiu dessa idéia. Chegou a conclusão de isso é ridículo, juvenil demais até para ela. Continuou a se vestir e agir como sempre. E às vezes se pega cantarolando “Nicest Thing”.
Nicest Thing. Eis uma música capaz de fazê-la sentir.
“All I know is that you're so nice
You're the nicest thing I've seen
I wish that we could give it a go
See if we could be something
I wish I was your favorite girl
I wish you thought I was the reason you are in the world
I wish my smile was your favorite kind of smile
I wish the way that I dress was your favorite kind of style
I wish you couldn't figure me out
But you'd always wanna know what I was about
I wish you'd hold my hand when I was upset
I wish you'd never forget the look on my face when we first met
I wish you had a favorite beauty spot that you loved secretly
'Cause it was on a hidden bit that nobody else could see
Basically, I wish that you loved me
I wish that you needed me
I wish that you knew when I said two sugars, actually I meant three
I wish that without me your heart would break
I wish that without me you'd be spending the rest of your nights awake
I wish that without me you couldn't eat
I wish I was the last thing on your mind before you went to sleep
All I know is that you're the nicest thing I've ever seen
And I wish we could see if we could be something
And I wish we could see if we could be something”

É difícil não sentir tudo de uma vez com uma música que dita todos os pensamentos. Assim fica difiícil de cumprir os objetivos.

E um cigarro em uma madrugada como esta é exatamente do que ela precisa. Pena que lembra ele.




- Nos fomos para Ubatuba, mas ela insiste que fui para Caragua.
"Tudo o que sei é que você é tão legal; - Forever. - Como uma maqueagem."



Meu nome não é padero;

Comentários

Fabiane Daz disse…
Mudar por outra pessoa é simplesmente impossível.. Não conhecia a música.. Abraço!
VitorS disse…
Legal o blog, to seguindo ele. Parabéns

http://mutacaonovageracao.blogspot.com/
João BDR disse…
Sempre tem algo que nos faz lembrar alguém, seja uma música, ou algum objeto, um lugar...

Muito bom o seu texto.
Você escreve muito bem, em bom português, conta direitinho os detalhes...parabéns pelo blog e pelos textos! ;)

Abraços!
Padilha disse…
Poxa elias , sabia que tu era filósofo, escritoor? meu, curtii , naum conhecia a musica ''/

e o livro, sai quando ??? \o\

toh seguindo jah heim
Dona Ana disse…
Tu escreves tão bem, que relaxei enquanto lia. Estou seguindo por prazer, beijos
Amei a letra da música, tb não conhecia.
muito boa mesmo!

http://fashionmaniacbrazil.blogspot.com
ascka disse…
=~~
Só não vou atrás de ouvir essa música porque, certamente, me fará chorar.
Conto perigoso pra quem tá meio na dor de cotovelo, haha.
Inglês via Web disse…
Bela letra, mas meio emotiva!

Visitem: http://inglesviaweb.blogspot.com/
AssiZ de Andrade disse…
Nossa...
Show de bola.
Considero que viver esteja diretamente lido ao ato de pensar.
Então... Sem consciência não sentimos a vida.

Vou nessa,
Abraços!

http://cafeeagua.blogspot.com
http://redutonegativo.blogspot.com
www.twitter.com/rejane_marques
Dona Ana disse…
Estou aguardando o próximo texto.
Obrigada pela dedicatória elias.Te adoro,saudades.
Seu blog está ótimo, tudo de muito bom gosto. Estou seguindo e sempre que puder volto pra comentar!
Esperamos você no Um Pouco Sobre Isso!
http://umpoucosobreisso.blogspot.com/
Siga-nos
muito bem escrito...postagem de primeira...parabens...
Fernanda disse…
Não-Padero, fiquei fascinada com o post, a impossibilidade de os "detalhes tão pequenos de nós dois" largarem a pele, o travesseiro, o nariz, a cançãozinha no ouvido. Até a coceira na nuca de não saber o que o outro está dizendo, mas pressentir que notícia boa não é, já senti várias vezes e me identifiquei lindamente. Parabéns, que preciosidade de texto. Ainda bem que nunca paramos de sentir, apesar de. :-) Beijos e muito sucesso no blog!
Luci disse…
Vc escreve muito. Tem uma boa linguagem. Parabénss!!!

http://vivaiona.blogspot.com/

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